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A urgência de resultados sempre foi um motor da evolução humana. Naturalmente, as coisas se davam segundo uma relação intrínseca de necessidade e busca de solução. Neste âmbito, forjaram-se (não sem resistências), alguns dos valores máximos da humanidade: técnicas, culturas, sociedades e éticas.

Este panorama, mais idílico, que ainda permitia horizontes de realização que se projetavam além do trabalho, foi solapado pela economia de mercado e as oportunidades de consumo. Hoje existe uma indústria que cria as necessidades ou as mesmas se configuram a partir do que já está em rede, gerando impulsos e tensões. Coisas da história. Outros conflitos.

O real é vertiginoso. Padronizados os processos e com a maquinaria corporativa projetada para sistemáticos ganhos de velocidade, parece que todo ambiente laboral é pressurizado. Não parece existir espaço para a conciliação entre a prática e o discurso. Assim, se um dia pedirem para você responder a esta pergunta: – Você consegue trabalhar bem sob pressão? Tome muito cuidado com o que vai dizer.

Em primeiro, porque em ambientes organizacionais, comentários vagos costumam ser interpretados como uma promessa. Segundo, porque negativas enfáticas podem gerar suspeitas de falta de comprometimento. Terceiro, porque, se você achar que estão propondo um “desafio” importante para sua carreira, acabará abraçando a situação e seguirá, obrigatoriamente, dizendo sim, sim, sim.

Neste último caso, seu futuro bifurca: ou vai ou racha. Conseguirá o bicho-homem alcançar seu destino? Chegará à gerência ou será o próximo a ser descartado, com a desculpa da crise? Neste cenário altamente competitivo e, artificialmente complexo, todo o cuidado é pouco e muitas vezes a pressão não justifica os resultados.

Nesta sinuca de bico, a resposta deve considerar outras condições, além de seus sonhos, percepções e competências: sua capacidade para overtime, ambição, tipo físico e resistência psicológica ao burnout e capacitação permanente. Eis os ingredientes. Nem todos sabem (ou concordam), só que uma empresa existe apenas para gerar lucro, e passa a existência toda pensando nisto e devido a uma disposição antropológica, dificilmente pensa num horizonte futuro maior que cinco anos. A maioria só pensa no próximo trimestre e vive o delírio das promessas insaciáveis.

A moldura do discurso paralelo, que vai da sustentabilidade até a cultura são apenas acessórios e marketing de imagem, pois não são a principal ocupação, embora louváveis em alguns casos. Muitas ações responsáveis, acabam gerando redução de custos, redução de tributos e maior share à própria organização, então não se pode falar em “ação desinteressada” ou altruísta. Mas é melhor isso do que nada e demonstra algum acerto.

Como a concorrência faz o mesmo, neste planeta cheio de oceanos vermelhos, todo mundo acaba exigindo mais dos seus funcionários, seja em nível operativo ou em relação ao valor agregado, para cumprir objetivos produtivos, estratégicos ou “responsáveis”. Afinal, pessoas são, em média, 80% de uma companhia, e é delas que se obtém a produtividade e a elas é que são pedidos os esforços e comprometimento. Até porque, em última análise, a lã vêm do carneiro.

Claro que, nas organizações mais avançadas, existem políticas de amortecimento social, planejamento de carreira e benefícios, porque elas sabem que, tratando bem seus colaboradores, terão mais receita, maior lealdade e menos custos. Mas não se fiem nisso, pois um abalo global pode mudar as condições gerais. Aliás, o mundo já mudou, enquanto você está lendo este artigo e alguém pode decidir não mais investir em pessoas, e sim, comprar novas máquinas ou terceirizar algum setor em função de melhor paridade fiscal.

Do ponto de vista das organizações, o importante é o dogma da sobrevivência: participação no mercado, redução de custos, aumento de margens e diversificação de ativos. É um eterno, enfadonho e suspeito monólogo. Assim, não necessariamente, quando existe um aumento de carga laboral, haverá a contrapartida na carreira. Pense nisto: O foco, nestes casos é a melhoria de eficiência em seus processos internos. E isto é normal e esperado.

Mas, podemos encontrar complicadores, quando entram em jogo as chamadas superstições corporativas, que são as interpretações subjetivas dos responsáveis acerca de como o trabalho deve ser (ou não) realizado. Muitas vezes, por falta de bom senso, situações bizarras ocorrem, inclusive com efeito reverso (ou perverso), de aumentar os retrabalhos e instabilidade no clima.

Aí a pressão sempre aumenta, pois, além da rotina, tem-se que gastar tempo e esforços para corrigir os problemas que, aliás, não precisavam ter sido criados. A crônica falta de bom senso nas relações do fluxo operacional gera muitas situações alarmantes e que devem ser corrigidas, para que os negócios continuem e metas sejam superadas. A cobrança, porém, não pode virar assédio, cabendo ajustes entre as partes envolvidas. É a lei! A busca de maior produtividade não implica desrespeito.

Saber disso é importante para a saúde psicológica e afetiva, pois assim é possível evitar (ou minimizar) a frustração e manter a capacidade de análise crítica, que é indispensável para um líder. Além de manter a dignidade e auto-estima, o detalhe precioso que pode fazer a diferença no ajuste na atmosfera ao seu redor é: não tente saber de tudo ou fazer tudo, apenas contribua com seu melhor e não acredite na nova onda dos gurus. Não sabe? O bordão agora é: fazer o seu melhor não adianta. Eis o novo mantra da neo-alienação e que disfarço seu cinismo no éden das miragens do vazio ético.

Seja assertivo e bem preparado, inclua nisto o polimento do caráter. Desista de seguir as receitas de bolo e evite cair na armadilha da agitação paralisante, como dizem os doutos. Cada um possui sua maneira de atuar e é capaz de apresentar resultados consistentes e isto é de suma importância para as organizações. Aliás, muitas empresas buscam coisas reais e não promessas inatingíveis. Ter o respeito devido a estas capacidades, competências e limites, mantém a empresa viva e o profissional sempre produtivo, sem altos e baixos.

Regularidade, a longo prazo, é preferível à ilusão da eterna alta performance.

Professor Lico – Blog do Coach

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